O regresso da Fiat ao competitivo segmento C do mercado automóvel faz-se com a reedição de um nome popular na marca: Tipo.  Já fez furor nos anos 90, onde alcançou a liderança das vendas, mas em 2016 chega com objetivos diferenciados. Será difícil liderar, mas poderá fazer “mossa” nas metas traçadas pela referência Opel Astra ou pelo mais vendido Renault Mégane. Eis um grande confronto em perspetiva.

A Fiat tem vivido alicerçada no nome 500. O lançamento da reedição do popular modelo aconteceu em 2007 e desde então têm nascido várias propostas com esta designação, desde o L ao X passando pelo Cross, Trekking e pelo 500 de sete lugares (Living), um verdadeiro universo construído à custa deste número cada vez mais sagrado para os lados de Itália. Todavia, sabendo que o segmento C é de extrema importância no seio dos construtores europeus, a Fiat decidiu reeditar um nome de peso. O Tipo está de volta. Primeiro chegou em carroçaria sedan e agora reforça a presença numa versão de 5 portas totalmente apontada aos pesos pesados deste mercado. Como o posicionamento é num nível médio-baixo, a marca comercializa uma versão com motor 1.3 Multijet de 95 cv, incapaz de se bater com os melhores, e uma segunda proposta com motor 1.6 Multijet de 120 cv, esta já ao nível de algumas referências do segmento. Com um preço abaixo de 25 mil euros, logo uma clara vantagem face à maioria dos concorrentes diretos, este é, sem dúvida, a melhor versão do Tipo para conseguir lutar contra a armada do segmento C. Por isso, nada melhor que o confrontar com o modelo que tem sido uma referência nos comparativos do Autohoje, o Opel Astra 1.6 CDTi de 110 cv, e o mais vendido, o Renault Mégane 1.5 dCi de 110 cv. Será o Tipo capaz de beliscar a hegemonia deste dois?

Ponto por ponto

No primeiro item pontuado, o da segurança, definimos dois patamares. Opel e Renault trazem, para além dos seis airbags e do ESP, obrigatórios, alerta de colisão frontal e avisador de transposição de faixa de rodagem com auxílio de manutenção na mesma. O Tipo, por sua vez, fica-se pelos airbags e ESP.  No alinhamento dos painéis não se vislumbram grandes diferenças entre os três, mas, já na garantia, a Renault vence com os cinco anos contra os dois anos de Opel e Fiat (a marca italiana propõe quatro anos de garantia na versão 1.3 Mjet Easy, campanha que também inclui financiamento). Chegado o momento de colocar à prova a capacidade das bagageiras, tentando encaixar as malas de viagem, todas convencem e revelam uma capacidade dentro da média do segmento, exceto o Fiat que sobressai com os 440 litros disponibilizados contra os 370 do Opel e 384 do Renault, que são passíveis de albergar a maioria da “carga” normal, ainda que o Opel tenha um piso mais elevado. Todas oferecem um acesso prático e funcional, todavia a do Tipo merece “destaque” por uma qualidade de forros inferior que é bem evidente quando comparada com a dos outros contendores.

No interior, os mais amplos atrás são o estreante Tipo e o Astra, ambos com um espaço para pernas referencial e desafogado. O Mégane não fica muito atrás e quase proporciona o mesmo espaço, mas é um pouco mais acanhado. Na versatilidade, não é difícil chegar a um empate. Nas soluções para que os objetos quotidianos não andem à deriva pelo “cockpit”, o Fiat também se revela capaz. Opel e Renault mantêm as mesmas funcionalidades, bolsas nas portas generosas, espaços na base da consola central e os dois porta-copos, fechados ou não, que tanto jeito dão na hora de pousar o telemóvel. O interior mais sedutor é confirmado pelo aprumo do carro germânico, com um nível de qualidade associado a uma robustez à prova de erros. O Renault não se mostra tão imperturbável às trepidações nem sequer ostenta uma montagem tão convicta quanto a germânica, mas convence e agrada pelos diversos materiais suaves ao toque. No Fiat, existem também alguns plásticos rijos que, apesar de não beliscarem a solidez geral, penalizam um pouco o ambiente, já de si prejudicado pelo desenho algo antiquado que apenas ganha algum “ar fresco” na inclusão do ecrã tátil, isolado no topo da consola.

Na postura ao volante, o Astra atinge facilmente o objetivo de agradar “a gregos e troianos”, apesar de se criticar a inclinação do assento. No Mégane, a posição é mais elevada e nem os múltiplos ajustes nos levarão a dizer que é a perfeita. No Tipo, as pernas ficam um pouco fletidas de mais e os bancos têm pouco apoio ao nível lombar. Tal postura é impossível de resolver com os ajustes disponíveis, podendo não agradar a muitos.

Por entre o caos das grandes urbes, o modelo de Rüsselsheim revela comandos muito fáceis de dosear e bastante intuitivos, ajudando na facilidade da condução. Na nossa pontuação, não se destaca do Renault por um motivo: tem um pequeno fosso até às 2000 rpm (requerendo um pouco mais de acelerador). Ambos contam com a ajuda do travão de mão elétrico e do complemento “auto-hold”, ótimo para arranques nas colinas urbanas. Ao Mégane é preciso imputar ainda o facto de sofrer com um pedal de travão menos fácil de dosear e, ao Tipo, o facto de obrigar a movimentos um pouco bruscos, sendo pouco harmonioso numa condução em ritmo de passeio. A culpa também tem de ser atribuída à caixa, que é a menos precisa e menos suave deste trio.

A facilidade de condução é beneficiada pela presença das câmaras de video traseiras nos três e pelos sensores de estacionamento, à frente e atrás, no Opel e no Renault e só atrás, no Fiat.

Curioso que, em relação ao conforto, e mesmo com o Renault a contar com jantes de 16” contra as jantes de 17” do Fiat e Opel, lidam os três muito bem com os pisos degradados merecendo, por isso, a mesma nota. Ainda assim, é o Renault que faz o melhor trabalho de suspensão pois consegue disfarçar muito bem a má qualidade das estradas. O Tipo é mais firme que o modelo francês, mas a amortecer não desilude, notando-se uma suspensão muito trabalhadora e eficaz. O Opel consegue, de resto, casar quase na perfeição o conforto com o comportamento. Apesar de sempre confortável, aplica-se como poucos perante traçados retorcidos sendo o que, entre estes três compactos vocacionados para o conforto, o que mais entusiasma. A direção é precisa e o nível de confiança muito alto. Os movimentos da carroçaria alemã são bem controlados e o próprio ESP fica a vigiar ao longe, podendo ser desligado. O Renault mantém-se francês neste aspeto, pois o chassis privilegia o conforto em detrimento da dinâmica, ponto que a marca não quis colocar no topo durante o desenvolvimento do modelo. Há muita aderência e a tendência subviradora também surge devidamente retardada. Por outro lado, a direção é um pouco inerte e o controlo de estabilidade, que não desliga, perturba por vezes o comportamento. O Tipo também não faz da dinâmica “a sua praia.” A direção tem o peso certo, mesmo com o modo City, mas em ritmos mais elevados a carroçaria revela alguma tendência para adornar, se bem que sem sobressaltos.

Quanto às prestações medidas pelo Autohoje, o que se saiu melhor foi o Fiat, seguido de perto pelo Astra. Ainda assim, todos os presentes revelam uma atitude bastante despachada, mas neste duo as retomas de velocidade são sempre mais decididas do que no Renault. Em todos, a subida de regime é razoavelmente linear, mas no Astra exigia-se maior ânimo antes das 2000 rpm, ainda que depois a rápida escalada até às 5000 rpm compense um pouco. O Fiat tem o binário máximo mais alto, com os 320 Nm a conseguirem um pequeno efeito de “empurrão nas costas.” Pena é que se fique pela indecisão e preguiça acima das 4000rpm, sendo pouco determinado até às 5000 rpm.

Em relação aos consumos, os três são muito regrados e as diferenças ficam-se pelos detalhes, e mesmo quando o “piloto” se entusiasma, os consumos nunca sobem em demasia, quedando-se as médias registadas pelo Autohoje pelos quatro e pouco, cinco litros /100 km.  Numa condução mais empenhada, sobem para perto dos 6 l/100 km. Quanto ao preço, Opel e Renault, nas versões consideradas (Innovation para o alemão e Intens para o francês) são claramente mais caras que esta versão mais equipada do Tipo, a Lounge que, sem opções, não chega aos 25 mil euros.  Em suma, o Tipo tem no preço o seu grande argumento, mas falta-lhe a tradição que a Fiat já teve no segmento, e nota-se uma aposta mais forte de Opel e Renault para conceber produtos mais refinados.

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